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'Voluntariado agrega valor à marca' Imprimir E-mail
Notícias - Sebrae
Escrito por O Globo - RJ   
Ter, 17 de Novembro de 2009 08:35

Presidente da Parceiros Voluntários: ação de funcionários em organizações sociais é boa para comunidade e empresas
Maria Elena Johanpetter

Mulher do empresário Jorge Gerdau, presidente de um grupo empresarial do ramo de siderurgia, a administradora gaúcha Maria Elena Johanpetter conheceu muitas experiências de voluntariado pelo mundo viajando com o marido.

Nessas viagens, constatou que o brasileiro já é solidário por natureza: tudo o que precisa é de um empurrãozinho para ir além da caridade.

Para casar a experiência das empresas à necessidade das organizações sociais, Maria Elena fundou há quase 13 anos a ONG Parceiros Voluntários.

O objetivo da organização é fomentar empresas a criarem seus comitês internos de responsabilidade social empresarial e voluntariado. Promove também cursos de capacitação gerencial e desenvolvimento de lideranças nas organizações do Terceiro Setor.

Hoje ela conta com uma rede de mais de 300 mil voluntários vindos de 2.456 empresas, atuando em 1.912 escolas e 2.731 organizações, com mais de 1 milhão de pessoas beneficiadas em 78 municípios gaúchos.

Co-autora de “O quinto poder Consciência social de uma nação”, que reúne análises de 12 especialistas sobre a atuação da sociedade civil organizada, Maria Elena conversou conosco sobre o trabalho da ONG e o voluntariado no Brasil.

O Globo: Como nasceu a ONG Parceiros Voluntários?

Maria Elena Johanpetter: Ela nasceu em janeiro de 1997, mas na minha cabeça começou a surgir dois ou três anos antes.

Atuava em conselhos de organizações sociais e, acompanhando meu marido em viagens, conheci muitos exemplos pelo mundo de participação ativa da sociedade civil em suas comunidades.

Pensei: o brasileiro é solidário por natureza, então podemos dar um passo além dessa solidariedade, das doações. Muitas vezes o mais importante no projeto social não é o dinheiro, mas a atitude de gestão que um profissional pode levar.

Foi o que propusemos à comunidade de Porto Alegre. Em vez de esperar que alguém faça por nós, dissemos: "vem, você tem uma RSI, uma Responsabilidade Social Individual."

O Globo: Como se deu essa mobilização, na prática?

Maria Elena Johanpetter: Fui a um programa de TV local e disse que precisava de cem voluntários e dez organizações sociais para um projeto piloto de voluntariado.

O programa foi ao ar às 18h e no dia seguinte, às 9h, quando cheguei ao prédio onde nossa pequena sala ficava, encontrei uma fila de 300 pessoas na calçada.

O porteiro disse que era uma organização que estava pedindo gente para trabalhar de graça: nós. Cadastramos cem e anotamos os contatos dos outros.

Isso mostrou que havia potencial.

O Globo: O que mudou nesse tempo nas empresas e organizações sociais?

Maria Elena Johanpetter: Em 12 anos, os conceitos mudaram.

As organizações sociais deixaram de nos ver só como fontes de recursos financeiros para nos enxergar como somos: um banco de recursos humanos voluntários.

Algumas pessoas achavam que estávamos roubando vagas remuneradas, mas perceberam que não é isso. As empresas aderiram por conta da capacitação do Terceiro Setor para ter metas, medir resultados, enfim, o linguajar que elas entendem.

O empresário quer ter certeza que o tempo de seu funcionário na ação voluntária, na organização social, será útil. E os voluntários perceberam que poderiam aderir a causas com transparência.

O Globo: Por que as empresas procuram vocês para iniciar um programa de voluntariado?

Maria Elena Johanpetter: As empresas se envolvem mais quando veem que o voluntariado agrega valor à marca.

É uma questão prática: para receberem certificações ou atuarem no mercado externo, as empresas devem estar envolvidas com a comunidade e o voluntariado é um caminho para isso, ao mesmo tempo que trabalha o público interno, inclusive desenvolvendo lideranças que ficam abafadas no ambiente empresarial e muitas vezes despontam em projetos sociais.

O Globo: E como a empresa pode estimular o voluntariado?

Maria Elena Johanpetter: Em primeiro lugar deve se pesquisar o que os funcionários já estão desenvolvendo. As empresas geralmente criam seus projetos para os funcionários aderirem e estimulam a continuar o que já fazem.

São criados comitês de, no máximo, 12 pessoas, que são capacitadas para serem mobilizadoras.

Há segmentos de trabalhadores mais fáceis de serem mobilizados, como os que trabalham em equipe. A empresa pode apoiar reconhecendo e valorizando os voluntários e contribuindo com as ações no que for possível e realmente necessário, doando algum material por exemplo.

O Globo: Entre os voluntários da Parceiros, mais de 70% são mulheres.

Por que isso acontece?

Maria Elena Johanpetter: Elas são 78% dos nossos voluntários. Acredito que isso seja porque a mulher tem um perfil biológico de cuidadora. Cuida da família, do trabalho, da casa, de “n” coisas ao mesmo tempo porque tem uma inteligência espacial.

O homem é mais focado, faz uma coisa de cada vez. Mas precisamos de mais homens voluntários porque eles têm um pragmatismo importante, que casa muito bem com a visão cuidadora da mulher.

O Globo: Também é interessante ver a quantidade de jovens voluntários.

São 36% de voluntários até 18 anos de idade e 15% de 19 a 25 anos.

Como se atrai essa juventude?

Maria Elena Johanpetter: Isso não é difícil. Os jovens têm muito gás, querem viver o “hoje” e vibram quando recebem a oportunidade de agir. Temos comitês de jovens que nos apoiam com ideias e com seu vocabulário para chegarmos a alguns públicos.

Eles não têm vícios, não têm caixinhas que os tornam quadradinhos.

O único "porém" é que eles querem fazer tudo ao mesmo tempo, então precisamos dar ordem nisso, mas se tornam ótimos líderes, aprendem a planejar, reunir grupos, criar parcerias, mobilizar a comunidade. Temos casos de jovens que começaram como voluntários e depois criaram suas empresas, onde fomentam o voluntariado.

O Globo: A Parceiros está trabalhando com o Sebrae e com a Petrobras em capacitação de organizações sociais. Do que se trata?

Maria Elena Johanpetter: Com o Sebrae, vamos formar consultores para trabalhar com as organizações a ideia de que elas podem ser unidades produtivas, com planejamento estratégico, captação de recursos, sendo que seu objetivo final não é lucro, mas sim atender bem ao público e ter como continuar seu trabalho por muito tempo.

A Petrobras patrocina um projeto que temos com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para desenvolver princípios de transparência e prestação de contas nas organizações sociais.

Prestar contas é dar retorno aos patrocinadores de como o dinheiro foi usado, aos voluntários de como o trabalho é feito etc.

O Globo: Para concluir, poderia nos resumir, em sua visão, o que é ”ser voluntário“?

Maria Elena Johanpetter: O conceito tradicional é que voluntário é a pessoa que disponibiliza tempo, conhecimento e emoção sem receber remuneração. Mas ser voluntário é mais.

É um estado de espírito, uma atitude que tem de ser pessoal, de se respeitar, respeitar o outro, respeitar o meio ambiente. Essa atitude de olhar o macro e saber que para toda ação há uma reação. Se agires de uma forma construtiva para a tua comunidade, para a tua família, contigo mesmo, a reação será boa. Tu escolhes a energia a que queres te unir.

"As organizações sociais deixaram de nos ver só como fontes de recursos financeiros para nos enxergar como somos: um banco de recursos humanos voluntários."

Maria Elena Johanpetter, presidente da ONG Parceiros Voluntários.